SOFISMO

Pesquisar é preciso, viver não. A paródia de Pessoa é, atualmente, a máxima da Academia. Basta ingressar numa universidade, sobretudo as públicas, e nos deparamos com inúmeros incentivos à pesquisa, participação em eventos e publicações que se somam complicando a vida dos jovens universitários. Produzir – o que está implícito nos três exemplos anteriores – é o novo modelo da Academia.

Parece-nos que este é o único interesse das graduações e pós-graduações, independente de que áreas do conhecimento se tratem. A universidade adentrou, lentamente – e atrasada, devido sua formação tradicionalista e medieva – ao modelo econômico vigente. Neste, a multiplicação da variedade dos produtos serve à crescente busca por nichos de mercado: é preciso que haja, por exemplo, café com e sem cafeína, afinal há público para ambos os tipos e eles não concorrem entre si. O conhecimento, compreendido como um artigo para venda, segue a mesma lógica.

O agravante é a chamada “sociedade da informação”, onde multiplicam-se pontos de vista e o acesso à eles é, além de imediato, garantido por um único critério: não pauta-se mais pela relevância do que é afirmado numa obra – ela será publica simplesmente se atender os princípios metodológicos corretos e se estiver regulado às normas acadêmicas. Não é difícil, por exemplo, encontrar um determinado livro que afirme a tese A e outro que sustente a tese não-A: “Cortázar é surrealista”, “Cortázar não é surrealista”.

Diante desse quadro, afirmamos, junto com Saramago, que a Caverna de Platão, dada as condições do contexto de produção e reprodução atual, não é mais composta por sombras. Ao invés de um simulacro negativo, o aspecto positivo se realça: no interior da Caverna são múltiplas imagens e fragmentos de textos, idéias e colagens que turvam a inteligência daqueles que lá estão.

Há, portanto, um repertório muito vasto, repleto de afirmações contraditórias que coexistem. E a Academia, assumindo esse modelo de produção intelectual – que sobrepuja a veracidade e vivacidade dos problemas – encontra aí farto material para dissertar. Numa pesquisa rápida nos sites de universidades públicas vê-se a imensa especialização dos temas pesquisados nos cursos de Mestrado e Doutorado. Vê-se, também, o nítido descolamento desses problemas da vida do pesquisador, que é levado a pesquisar exclusivamente por necessidade burocrática e, defronte dessa imposição, age de modo a adequar uma série de idéias dispersas (porque desprovidas de viscerabilidade) ao modelo proposto para determinado tipo de trabalho.

Grosso modo, o caminho que a pesquisa acadêmica segue é a de justificação das principais afirmações de um trabalho segundo autores já consagrados. A validade de uma dissertação é dada pela referência que faz à textos em que a idéia-nova em questão está implícita e/ou pode ser interpretada segundo o interesse do pesquisador. Está clara, então, a tangente entre a pesquisa acadêmica e aquela constelação de textos citados anteriormente. Dissertar é, usando uma terminologia informacional, “copiar e colar”, dando a impressão de que esse arranjo produz algo novo. E se este “algo novo” cumprir com o rigor metodológico, se for resultado de uma eficiente tarefa de leitura e composição da colagem final, ele será usado por outros pesquisadores a fim de justificar outras “novas idéias”.

A inferência possível diante dessas constatações é que qualquer coisa pode ser pesquisada na Academia. Superando os problemas burocráticos, como encontrar um orientador, conseguir o benefício de uma bolsa de estudos, dar conta da imensa bibliografia, teses A e não-A poderão ser produzidas – desde que se encontrem as referências mais adequadas e convenientes. Depois dessa etapa, a divulgação dos resultados da pesquisa em seminários, colóquios e afins completará a rota do nascimento de outro texto estéril no universo sofístico da Academia.

Gustavo Lacava

Professor de Filosofia e graduando em Letras/UNESP

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Meu Perfil , Dr. Eloi Chad - Filósofo, Advogado e Jornalista desde os 25 anos

 
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